Exercício: Entrevista com Marcello Dalla - Mayara Nobre

O encontro com Marcello Dalla, trilheiro e desenhista de som, foi extremamente enriquecedor criativamente e confesso que o fato de ele ser brasiliense já me inspira muito. “Tentativa e erro, busca... é aí que mora o aprendizado, a arte.” “Preste atenção no que você sente testando os sons”. Esses comentários feitos pelo entrevistado me fisgaram muito por dois motivos. O primeiro, é que cada vez mais entendo que o meu aprendizado depende muito mais de eu ir atrás e experimentar do que da universidade me oferecer meios para isso. Como muito bem apontado por Dalla, a área de som não faz parte do currículo obrigatório/oficial da grande maioria dos cursos de cinema ou teatro. A consequência disso, é que muitas pessoas se formam e vão trabalhar sem entender o tamanho da potência sonora, sem ter a noção de que a imersão sensorial se da a partir do som, que dialoga com a imagem e outros elementos, e que mesmo os sons considerados “mínimos ou detalhes” são grandes potencializadores emocionais. O segundo motivo, é que Marcello nos instiga a fazer tais experimentações de tentativa e erro com o que já temos em mãos e não depender de equipamentos profissionais. Isso, de certa forma, democratiza o fazer sonoro e me fez perceber que, inclusive, já perdi tempo de não ter começado a explorar o som antes. “Usa seu celular, transforma esse som, faz sonoplastia, faz arte, faz escultura com esse som, as ferramentas estão todas aí”, ele comenta. 

“A música do século XX é baseada em textura sonora”, diz Marcello ao falar sobre essa propriedade do som que é capaz de ditar a tensão da obra, determinar a qualidade sonora, a densidade dos elementos e a imersão sensorial. Ele acrescenta que a textura sonora é tão importante quanto a melodia e a harmonia. Admito que esse é um termo ainda um pouco abstrato no meu entendimento, mas estou buscando conhecê-lo melhor. 

A ideia de que o som “serve à imagem”, não nos compreende mais. O som deve ser pensado antes de ser executado e é preciso dar a atenção necessária exigida por ele no processo de composição de uma obra, até porque, como Dalla comenta, o som dialoga com todas as artes. Eu entendi que toda música é som mas nem todo som é música e o processo de conceber esse elemento pode ir muito além do que estamos habituados. Uma vez que reconhecemos a plasticidade do som, que ele é matéria e que tudo é energia e vibração, podemos chegar à conclusão de que tudo tem a capacidade de se transformar em som. O brasiliense dá dois exemplos que ilustram tanto esse conceito quanto o da textura sonora com projetos em que já trabalhou. Para uma coreografia do grupo “EnDança” de Luís Mendonça e Márcia Duarte, Marcello transformou as diversas sonoridades da água em música usando “samples” e diz que foi um grande aprendizado técnico e criativo. Em “Deserto Feliz”, um longa-metragem de Paulo Caldas, explorou as propriedades discursivas das diferentes sonoridades do ar e diz que cada vento tem um sentido e uma sensação que abrem possibilidades infinitas e “dependendo do que está acontecendo, vento não é só vento”. 

Ficou claro que Marcello Dalla busca nos provocar de diversas maneiras diferentes e sinto que todas funcionaram comigo. Estou ansiosa para começar o processo criativo dessa disciplina e ter uma “viagem do bem” ou “viagem criativa”, como diz ele. 

 

 

 

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