exercício: entrevista com Marcello Amalfi | Ana Beatriz Campos
Na entrevista com Marcello Amalfi, tivemos oportunidade de conhecer sua trajetória em um meio ainda não muito difundido academicamente e de ter um breve contato com seu entendimento macro-harmônico (como em seu livro) da relação entre música e cena. No encontro, Marcello enfatizou a importância da maneira como é construído o processo que as relaciona, sobre o momento no qual a trilha é feita - a importância do timing - para o espetáculo. Amalfi contou sobre como, tantas vezes, o processo é encurtado e a trilha acaba por ser acrescida tardiamente aos ensaios e desenvolvimento da peça, o que prejudica a dinâmica que ocorre (ou que poderia possivelmente se dar) entre a música e todos os outros elementos cênicos, como se a trilha ficasse, de certa forma, deslocada nessa equação.
Na concepção e experiência do maestro, todos os elementos devem estar em conversação, pois como ele mesmo colocou: "O som altera o espaço." Como em experiência que teve e compartilhou conosco, na qual a trilha que fez para uma peça ter sido posta nos ensaios, tendo esses já iniciado há certo tempo, e o quão confusos ficaram os atores espacialmente. A música alterou a dimensão e noção espacial deles e tudo parecia menor. Contou também sobre uma outra situação na qual participou de todo o processo de uma peça, tendo, inclusive, entrado em cena como ator brevemente e como nessa ocasião essa conversa entre a trilha e os outros elementos cênicos se desenvolveu com muito mais fluidez. Esses são exemplos importantes para ilustrar seu entendimento e experiência de que nesse processo de construção de um espetáculo, de relação entre música e cena, a música é também a personagem, a luz é um elemento da música, assim como o figurino e assim por diante - todos os elementos devem estabelecer uma conversação, pois têm influência uns nos outros. E, ainda dentro dessa questão, explica que diferentes elementos estarem em harmonia, não deve ser compreendido enquanto um sinônimo de estarem em concordância, mas de estarem se relacionando, ainda que conflituosamente.
Outra questão fundamental tratada na entrevista foi acerca do entendimento que se tem de sonoplastia, da função de uma trilha - Marcello falou sobre seu processo de entender que a trilha não precisa ser - e ele prefere que não seja - uma ilustração do que já está sendo dito, gesticulado, ou enfim, visualmente colocado na peça. O maestro falou sobre os contrastes que podem ser estabelecidos entre o que está ocorrendo no som e o que está ocorrendo emocionalmente com as personagens da peça, por exemplo. Tal contraste distancia-se do pleonasmo que costuma ser estabelecido nessa relação, quando o entendimento que se tem e o que se faz é ilustrar a cena, fazer um acorde triste para uma personagem triste.
O maestro propõe, enquanto teórico e artista, a trilha enquanto partícipe da produção teatral, e não como um elemento acessório de cena.
Comentários
Postar um comentário