exercício: entrevista com Marcello Dalla | Ana Beatriz Campos

     Marcello Dalla trouxe na entrevista uma enorme abertura de questões e possibilidades para se pensar o fazer de uma trilha sonora - ou até a definição de trilha sonora (e até mesmo a definição de música). Citou, por exemplo, o caso do filme "Festa de Família" do diretor dinamarquês Lars von Trier, no qual  a trilha sonora consiste, como disse Dalla, em sons "triviais que tornam-se reais" devido à qualidade do trabalho de desenho de som. No filme não há música no sentido tradicionalmente dito e entendido, no entanto há trilha sonora e um meticuloso trabalho por trás da captação e edição dos sons de talheres batendo em pratos e afins. Marcello trouxe, também, exemplos de sua experiência, que foram, ao meu ver, muito inspiradores. Um deles foi o espetáculo de dança que trabalhou com diversos samples de sons líquidos - de pequenos objetos pesados sendo jogados em um balde d'água, por exemplo, ou de um pano encharcado sendo torcido - Dalla organizou cada sample enquanto uma nota musical e assim fez a trilha sonora. Outra experiência que compartilhou conosco foi a trilha sonora que fez para um filme, no qual precisou mixar o som do vento. Marcello enfatizou que uma trilha pode não ter sequer uma nota musical - e ainda assim ser uma trilha sonora. 

    Música pode ser feita com líquidos, ventos e talheres. Essa questão enfatiza outra fala de Dalla na entrevista, quando, relacionando (ou comentando a impossibilidade de não relacionar) música/som às demais linguagens artísticas, Marcello disse: "não existe fronteira entre as coisas." Essa não-existência de fronteiras entre as linguagens e dentro das linguagens foi uma questão na entrevista que se sobressaiu para mim. Para contextualizar essa concepção de som/música, Marcello citou brevemente a música do século XX - longo período no qual ocorreram diversas mudanças na música. Compositores e estudiosos ampliaram seu campo experimental e se depararam com elementos musicais antes não pensados ou desenvolvidos, foi um longo processo para a "libertação do sistema de tonalidades maior e menor que motivou e deu coerência a quase toda a música ocidental desde o século XVII" ( GRIFFITHS, 1998, p. 7) e ampliação da concepção da definição e possibilidade dos elementos sonoros. Juntamente à questão do desenvolvimento da experimentação (e vários outros fatores, como a globalização),  ocorreram bruscos avanços tecnológicos - outro fator importante para a possibilidade de ter se dado essa movimentação. Os compositores passaram a trabalhar com textura em suas composições - elemento que Marcello enfatizou em grande importância.

    Além de suas falas sobre a importância da educação técnica de edição e construção de som (uma área que, assim como citada na entrevista de Marcello Amalfi, é tratada com descaso), Dalla enfatizou a relação entre técnica e conceito e tratou de maneira muito interessante as possibilidades sonoras, seus elementos e instrumentos-possíveis, dando ênfase ao processo de edição de som e descartando a necessidade de utilizar aparelhos caros ou instrumentos tradicionais para fazer uma trilha. 

Referências

GRIFFITHS, Paul. A música moderna: uma história concisa e ilustrada de Debussy a Boulez. Tradução: Clóvis Marques. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998.   

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