Exercício: Entrevista com Marcello Amalfi - Alzira
A entrevista realizada com Marcello Amalfi no dia 18 de fevereiro elucidou inúmeros aspectos sobre as relações entre som e cena, especialmente no que diz respeito à formação de um músico de teatro e à necessidade de atualização e aprendizado constante.
Marcello iniciou sua fala falando sobre o quanto ainda há certa invisibilidade em relação ao trabalho de um músico de teatro, alegando que de maneira geral ninguém escolhe deliberadamente tornar-se músico de teatro, a formação nesta área se desenvolve perpassando-se inúmeros caminhos.
Na sua trajetória pessoal pudemos conhecer que Marcello reconheceu-se inicialmente como músico, cancionista e integrante de bandas, e que seu trabalho no teatro iniciou-se como assistente na confecção de figurinos, adereços e máscaras. Este primeiro contato lhe possibilitou conhecer alguns elementos da estrutura teatral, além de abrir as portas para assistir a inúmeros espetáculos – aspecto fundamental para se desenvolver artisticamente na linguagem teatral. Sua carreira como músico de teatro iniciou-se no momento que foi indicado para compor a música de um espetáculo.
Ao trabalhar no palco, a partir de vivências práticas, ele percebeu o quanto todos os diretores e diretoras com os quais trabalhou contribuíram para o seu aprendizado, a prática foi a sua “primeira escola”. O trabalho como músico de teatro mostrou-se diferente do que ele realizada enquanto músico de bandas, onde a música é o acompanhamento dos cantores, já no teatro, a música ajuda a compor toda a totalidade do espetáculo, é um processo de retroalimentação entre a música e os demais elementos que compõem um espetáculo teatral, como ele mesmo evidenciou na entrevista, “a música também é personagem”.
Enquanto trabalhava e aprendia sobre o trabalho e as possibilidades de um músico de teatro, as demandas que surgiam a cada trabalho exigiram que ele buscasse ampliar seu conhecimento e aprimorar-se enquanto artista (às vezes apenas o conhecimento empírico esbarra em certas limitações e não é suficiente para o desenvolvimento de uma prática artística mais completa) e assim ele buscou o conhecimento acadêmico na área de música, mas sem abandonar a permanente busca de conhecimentos das particularidades da arte teatral.
A vivência prática e o conhecimento teórico lhe apresentaram outras perspectivas em relação a musica para teatro. Os pontos mais interessantes de sua fala relacionaram-se a ampliação de suas perspectivas técnicas e poéticas, a música composta para o espetáculo demanda extensa pesquisa além do aprimoramento técnico, para que não se caia em clichês estéticos e a música seja apenas uma ilustração da cena, assim como estamos acostumados a ver na linguagem do cinema.
Suas análises sobre as possibilidades de trabalho com a música em cena a partir de contrastes foi muito interessante, pois trabalhar de forma literal geralmente é o caminho mais fácil, mas também o mais “pobre” artisticamente, pois no teatro é importante observar como todos os elementos contribuem para a música e para a proposta cênica, gerando-se uma harmonia que não necessariamente significa estar em concordância, mas a ideia da união entre dois elementos se relacionando para gerar um terceiro elemento.
Marcello evidenciou bastante a necessidade de se fugir da literalidade, não há a necessidade de ilustrar uma cena com a música, a musica pode “tocar o invisível, pois o visível já está lá”, ou seja, pensar a música em cena de modo a enriquecer a experiência do expectador.
Ao citar grandes diretores que contribuíram para o seu aprendizado, Marcello mostrou que o registro e documentação das vivências que passava e os espetáculos que trabalhava foi fundamental para o seu crescimento enquanto artista. Apresentando os registros de dois espetáculos que ele trabalhou: Os Possessos (direção de Aburanja) e Santo Parto (direção de Bárbara Bruno), foi possível perceber a extensa pesquisa para compor as músicas dos espetáculos, buscando diferentes formas para suprir deficiências e resolver problemas, como por exemplo, aprender russo. Os processos desenvolvidos na apresentação dos dois espetáculos mostraram que há muitos caminhos dentro de um processo criativo para se atingir determinados objetivos, não existe uma única maneira.
A finalização de sua fala foi sobre a continuidade de seu percurso na busca por aprendizado, ingressando no mestrado e depois no doutorado. A continuidade dos estudos acadêmicos o possibilitou conhecer o trabalho de Jean Jacques Lemetre do Theatre du Soleil, que trouxe novas perspectivas para o desenvolvimento do seu trabalho, especialmente na perspectiva da transmissão de saberes. Foi muito interessante ouvir sobre a preocupação de Marcello em passar seu conhecimento adiante, a partir da estruturação de seu trabalho de maneira científica, para que assim os conhecimentos que ele adquiriu e continua adquirindo não sejam conhecimentos individuais, mas que possam atingir outras pessoas e continuar reverberando e gerando novos conhecimentos.
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