Entrevista com Marcello Amalfi - Otavio

Ouvir o Maestro Marcello Amalfi falar sobre como ele encara sonoplastia hoje, depois de anos de experiência, me faz lembrar Eugenio Barba falando sobre dramaturgia orgânica como uma forma de se pensar, manifestado na composição de ritmos e dinamismos em uma linha de ação (uma partitura) que cria, descobre e tece relações. O resultado disso é um organismo unitário onde os detalhes e elementos são indistinguíveis do todo. Evidentemente, a sonoplastia é um desses elementos de cena, e realmente parece ser o ponto fraco na literatura teatral brasileira. Creio que quando Amalfi fala de "confundir" ou mesclar sua música com o personagem, com os objetos de cena, com a iluminação, e não apenas tê-la como música de fundo acompanhante, ele deixa de pensar de uma forma estritamente musical e passa a pensar de forma dramatúrgica. Passar a pensar assim exigiu mais presença e engajamento nos processos no qual Amalfi participou, uma vez que a medida que os personagens mudam e crescem ao longo de sua gestação, a música deve evoluir também. Como compositor, Amalfi tende a estar presente não apenas nos ensaios, mas também fora deles. Assim como para o ator, suas pesquisas, estudos e experimentações expandem para além da sala de ensaio. Percebo que na falta de cursos e livros sobre sonoplastia teatral, Amalfi inconscientemente acabou seguindo uma trajetória bem próxima aos moldes da prática como pesquisa, na qual as montagens em que participou foram sua escola. Digo inconsciente por conta do seu relato sobre fazer faculdade de música “sem saber música” e passar por uma experiência de síndrome de impostor; foi no mestrado que sua prática como pesquisa passou a ser sistematizada e articulada de forma mais acadêmica. O lado positivo dessa experiencia é que Amalfi pensa na sonoridade de maneira bem mais poética, metafórica, e experimental do que o tradicional clichê hollywoodiano. Imagino que para além de lhe possibilitar usufruir melhor de sua criatividade, essas qualidades também abrem mais portas para trabalhos colaborativos.

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